Em tempos de crise climática e descrédito nas instituições democráticas, empreendedores sociais constroem caminhos para a participação cidadã
Maria Vitória Ramos e Yuri Salmona, fundadores da Fiquem Sabendo e do Instituto Cerrados, entram para a rede global da Ashoka por inovações que transformam o acesso à informação e a proteção do Cerrado
A Ashoka tem o prazer de anunciar Maria Vitória Ramos e Yuri Salmona como seus mais novos Fellows, passando a integrar sua rede global de Empreendedores Sociais. Com trajetórias distintas, mas convergentes em propósito, ambos promovem mudanças sistêmicas que fortalecem a democracia: Maria Vitória, ao popularizar a Lei de Acesso à Informação como instrumento de controle social e cidadania ativa; Yuri, ao mobilizar ciência, comunidades e políticas públicas para proteger o Cerrado — bioma essencial para a segurança hídrica e a integridade social e econômica do país.
“Maria Vitória e Yuri compartilham princípios fundamentais que sustentam redes comprometidas com transformações sociais,” afirma Andrea Margit, vice-presidente da Ashoka na América Latina. “Essas redes se fortalecem com o propósito comum de mudar sistemas — sejam eles políticas públicas, práticas de mercado ou normas sociais — e de criar um mundo onde todas as pessoas se reconheçam como agentes de transformação. A entrada de cada novo empreendedor social fortalece a confiança e o impacto dos demais.”
Maria Vitória Ramos: transparência como prática cidadã
Sancionada em 2012, a Lei de Acesso à Informação (LAI) garante o direito de qualquer cidadão obter dados públicos — um pilar essencial de uma democracia sólida. Ainda assim, seu uso permanece limitado e muitas vezes inacessível. Para transformar esse cenário, Maria Vitória cofundou, em 2018, a Fiquem Sabendo, organização que descomplica e democratiza o uso da LAI, convertendo dados brutos em informações compreensíveis, úteis e que permitem ação por parte da sociedade.
Essa postura proativa desafia o status quo ao buscar reduzir as assimetrias entre quem detém informações nos órgãos públicos e a sociedade. Mais do que apenas solicitar dados, a Fiquem Sabendo engaja cidadãos e organizações no uso da LAI de forma estratégica, promovendo o investimento responsável dos recursos públicos e influenciando políticas em benefício do bem comum.
A Fiquem Sabendo combina jornalismo, incidência política, educação e tecnologia cívica para viabilizar o uso estratégico da LAI por jornalistas e pela sociedade civil. Em suma, funciona assim: a Fiquem Sabendo solicita dados estratégicos às entidades governamentais, analisa as informações obtidas, coopera com órgãos públicos para corrigir distorções e publica análises rigorosas que embasam o debate público e pressionam por mudanças. Suas investigações expõem falhas de políticas públicas, corrupção e ineficiência, catalisando ações de responsabilização.
A organização já obteve dados inéditos que geraram mais de 10 mil reportagens em veículos nacionais e internacionais, além de quase 3 mil publicações próprias. Dois marcos recentes destacam sua relevância:
– A divulgação dos pagamentos de pensões a militares e seus familiares, após quatro anos de batalhas judiciais, revelando R$ 480 bilhões pagos em 27 anos, com distorções como benefícios duplicados. A repercussão resultou em mais de 4 mil reportagens, estimativas de economia de R$ 6 milhões anuais e propostas legislativas para reformar o sistema.
– A abertura dos gastos com cartão corporativo dos ex-presidentes, que se transformaram, pela primeira vez, em dados abertos acessíveis à sociedade. Em seis meses, foram publicadas 3 mil reportagens e iniciadas apurações no Ministério Público de Contas e na AGU.
Essas revelações alimentaram a pressão contínua da Fiquem Sabendo por maior fiscalização e prestação de contas por parte do governo, ressaltando a necessidade urgente de uma gestão pública mais transparente, responsável e ética no Brasil.
Uma série de canais permitem à sociedade seguir e se engajar continuamente com os propósitos da Fiquem Sabendo: a newsletter Don’t LAI to Me, que impulsiona debates públicos a partir de informações de fontes primárias; a WikiLAI, uma enciclopédia digital colaborativa com 100 mil usuários que reúne boas práticas, orientações jurídicas e exemplos de pedidos bem-sucedidos de informação pública; e a Agenda Transparente, que rastreia o lobby no Brasil com base nas agendas de mais de 10 mil autoridades federais.
Maria Vitória conheceu a LAI durante a graduação em jornalismo e rapidamente vislumbrou seu potencial de transformação. Ainda estudante, se destacou como liderança acadêmica e escreveu o livro-reportagem “Indigentes: o Estado que enterra sem avisar”, reconhecido pela Abraji e pela Conectas por denunciar omissões em casos de desaparecidos enterrados sem aviso às famílias.
Para Kelly dos Santos, coordenadora de busca e reconhecimento de Empreendedores Sociais Ashoka, “Maria Vitória demonstra que a coragem e a ética individual, quando compartilhadas coletivamente, tornam-se forças potentes de transformação social. A Fiquem Sabendo é a prova de que a participação cidadã não é apenas desejável — é essencial para a vitalidade da democracia. Conhecer nossos direitos, entender como as decisões públicas são tomadas e quem delas se beneficia, bem como exigir transparência e responsabilidade no uso dos recursos públicos, são passos fundamentais rumo à justiça social”.
O que move a mais nova Empreendedora Social Ashoka é o desejo de mudar a forma como a sociedade se relaciona com o poder.
Saiba mais sobre Maria Vitória Ramos: www.ashoka.org/pt-br/fellow/maria-vitoria-ramos
Ainda há uma distância enorme entre quem decide e quem é afetado pelos tomadores de decisão. Meu propósito como empreendedora social é atuar nas causas estruturais dos problemas, e não apenas nos sintomas. Fazer parte da Ashoka é estar ao lado de pessoas que também estão transformando estruturas. É uma oportunidade de fortalecer nosso trabalho, trocar com quem enfrenta desafios similares e ampliar o alcance e a escala do que estamos construindo, dentro e fora do Brasil.
Yuri Salmona: um milhão de hectares protegidos até 2050
O Cerrado, que cobre cerca de 25% do território brasileiro, perdeu mais da metade de sua vegetação nativa. Transformado em polo agrícola por políticas desenvolvimentistas desde os anos 1950, o bioma tornou-se o maior exportador de soja do mundo — e foi o mais desmatado do Brasil em 2023 e 2024. Essa degradação ameaça a biodiversidade e a segurança hídrica do país, já que o Cerrado abastece 8 das 12 maiores bacias hidrográficas brasileiras.
Invisibilizado, com predominância de terras privadas e ausência de políticas públicas que apontem outras alternativas de desenvolvimento, o bioma vive uma crise sem precedentes. É para enfrentar esse cenário que Yuri Salmona criou o Instituto Cerrados, com a missão de tornar o bioma uma prioridade nacional.
Yuri cresceu em Brasília em meio a uma confluência de culturas, histórias de resistência e uma conexão íntima com a natureza. Desde pequeno, as visitas ao campo e os ensinamentos de seu avô raizeiro sobre as plantas do Cerrado despertaram nele a convicção de que a relação com terra é de cuidado e afeto, e não de um bem a ser explorado. Movido por esse vínculo e pela inquietação diante da degradação do bioma, Yuri decidiu estudar geografia na Universidade de Brasília. Como liderança estudantil, ele articulou melhorias para a vida universitária e consolidou sua dedicação à transformação social. Suas pesquisas o levaram a compreender as causas estruturais do descaso com o Cerrado, e a canalizar essa compreensão para a construção de soluções sistêmicas e inovadoras.
Fundado em 2011, o Instituto Cerrados está organizado em quatro frentes: conservação territorial, tecnologia, mobilização comunitária e incidência política. A primeira iniciativa foi o Programa Jurema, que fomenta a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) como estratégia essencial em um território amplamente privatizado. Mais de 30 reservas já foram criadas, integrando conservação com a valorização de comunidades locais.
Para responder a emergências ambientais, Yuri desenvolveu o Suindara, sistema de monitoramento de incêndios e desmatamento. A ferramenta de alerta se destaca de outras ao mostrar a distância do foco de incêndio, as coordenadas, e exibindo um mapa topográfico para que as brigadas, gestores públicos, comunidades e agricultores possam acelerar o tempo de resposta e aumentar a eficácia do combate ao fogo. Atualmente, o Suindara conta com mais de 200 usuários cadastrados em mais de 100 territórios, 20 brigadas e 8 milhões de hectares monitorados. Yuri está empenhado em integrar esse sistema de alerta a sistemas de monitoramento estatais, de modo que as operações sejam melhor subsidiadas.
Outras soluções lideradas por Yuri incluem:
– A plataforma Tamo de Olho, que cruza dados ambientais e sociais para embasar ações do Ministério Público e da Defensoria Pública;
– O Programa Povos do Cerrado, que fortalece a presença e os direitos territoriais de comunidades tradicionais via mapeamento participativo;
– A coordenação do aplicativo Tô no Mapa, em parceria com organizações como IPAM, ISPN e Rede Cerrado, que já cadastrou 246 comunidades cobrindo 8.300 km².
A comunicação estratégica é outro pilar central. A campanha "Cerrado: o Coração das Águas" ganhou relevância ao vincular a conservação do bioma à segurança hídrica nacional, levando à criação, pelo Ministério do Meio Ambiente, das Áreas Prioritárias para Conservação da Água no Cerrado (APCAC).
“Com essas estratégias integradas, Yuri consolida o Instituto Cerrados como uma força transformadora na conservação e gestão do bioma, mostrando como todas as pessoas e organizações podem contribuir”, diz Kelly dos Santos, coordenadora de busca e reconhecimento de Empreendedores Sociais Ashoka.
Até 2050, o objetivo de Yuri é garantir a proteção de 1 milhão de hectares. Para isso, ele quer ampliar a capacidade operacional do instituto, fortalecer sua atuação pública e destacar as vozes de quem vive e protege o Cerrado. Ao articular ciência, tecnologia, conhecimento tradicional e incidência política, Yuri Salmona demonstra que conservar o Cerrado é uma tarefa urgente — e possível.
Saiba mais sobre Yuri Salmona: www.ashoka.org/pt-br/fellow/yuri-salmona
Meu propósito é chamar atenção para o Cerrado e seus povos, frear o desmatamento e impedir violações de direitos territoriais. Com a rede Ashoka, espero ampliar parcerias e engajar novos públicos para catalisar essa pauta.