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Suzana Pádua: uma trajetória de transformação

A Ashoka acredita que, quando uma pessoa se torna agente de mudança, comunidades inteiras se tornam mais saudáveis, resilientes e cheias de propósito. Agir pelo planeta e pelas pessoas não são caminhos separados, são a mesma jornada. Nossa comunidade é altamente inspiradora e tem promovido mudanças significativas em diversos campos ao longo desses 40 anos, como educação, meio ambiente, saúde e inclusão.

Parte dessa rede é formada por empreendedores sociais, os fellows Ashoka. É nas trajetórias desses fellows que a transformação ganha forma na prática. Cada história é única e todas começam com um primeiro passo.

É o caso de Suzana Pádua. Convidada pela Ashoka Brasil a refletir sobre seu primeiro contato com a transformação, ela relembra que, no início de sua trajetória na educação ambiental, enfrentou desafios que chegaram a desanimá-la, até que um episódio mudou tudo: ao encontrar o caderno de um aluno com um texto sobre a importância do seu trabalho, percebeu que estava no caminho certo.

Ao revisitar esse percurso, Suzana mostra como sua atuação evoluiu ao longo do tempo e segue gerando impacto positivo, inspirando outras pessoas a se reconhecerem como agentes de transformação, mostrando que qualquer pessoa pode assumir esse papel.

“A transformação talvez precise de impulsos e processos de trocas contínuas. Basta termos olhos e corações abertos para perceber os efeitos do que estamos fazendo”, afirma Suzana.

Desde o início, sua motivação foi transformar a forma como as pessoas se relacionam com a natureza, influenciando valores, comportamentos e o fim de estruturas que sustentam a destruição ambiental. Um exemplo desse impacto é o empoderamento e fortalecimento da equipe inicial do IPÊ, movimento que possibilitou sua expansão e consolidação como organização de destaque em quatro biomas brasileiros. O que começou como um pequeno grupo cresceu para cerca de 200 pessoas atuando na conservação da biodiversidade no país. Mais do que ampliar uma organização, Suzana ajudou a redesenhar o campo socioambiental brasileiro, contribuindo para a formação de uma nova geração de profissionais e mostrando que os sistemas que moldam nossa relação com o meio ambiente podem, sim, ser transformados.

Outra iniciativa importante na formação de agentes de mudança é a ESCAS (Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade), que já formou mais de 8 mil alunos.

Suzana também destaca transformações impulsionadas no Pontal do Paranapanema, onde sua atuação ajudou a transformar conflitos por terra em soluções sustentáveis. Assentados da reforma agrária passaram a desenvolver seus próprios negócios voltados ao reflorestamento, resultando no plantio de mais de 10 milhões de árvores por meio do programa Corredores de Vida. A iniciativa gerou renda, fortaleceu a comunidade e transformou conflito em esperança. Além disso, o engajamento local se refletiu na proteção do território, com a própria população atuando diretamente no combate a incêndios na região. Isso mostra que, quando comunidades se tornam protagonistas, o impacto vai muito além do que qualquer organização alcançaria sozinha.

A fellow também comenta o papel fundamental da Ashoka em sua trajetória. Segundo ela, o reconhecimento da organização foi decisivo para que passasse a se enxergar como empreendedora. Ela reflete ainda sobre o futuro do campo da transformação e sobre como sua atuação seguirá contribuindo para essas mudanças nos próximos anos.

 

Confira a reflexão completa da fellow abaixo:

1. Qual foi a sua primeira experiência de transformação?

Muitas vezes não percebemos o efeito de nossos atos, que passam a ser parte de nosso dia a dia. No início de minha trajetória no campo da educação ambiental, o foco era trazer conhecimento, sensibilização e envolvimento para a proteção de uma área natural no extremo oeste do estado de São Paulo, o Parque do Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema. Nosso público principal eram os alunos de escolas regionais, tanto urbanas quanto rurais, que estavam próximas ao Parque, onde habitam espécies ameaçadas, como mico-leão-preto, onça, anta e uma borboleta branca que só existe lá.

A meta era encantar a todos de modo a que se envolvessem com a proteção desse patrimônio natural, que hoje está rodeado por um ambiente desmatado e deteriorado. Trabalhar com alunos e professores acaba trazendo oportunidades aos educadores de serem reconhecidos pelos mais diferentes atores sociais. Ou seja, no meu caso, me tornei bastante popular — dava palestras, falava na rádio local e travava contatos contínuos com pais e demais membros da comunidade local, inclusive políticos. Isso trouxe uma certa popularidade, o que causou desconforto por parte de outros que queriam a glória, mas sem terem se dedicado.

O desgaste muitas vezes era imenso e a vontade de desistir me visitava com certa frequência. Um dia em que estava com a moral baixa (isso mesmo, empreendedores também entram em crise), percebi um caderno esquecido por um dos alunos que visitara o Parque naquele dia. O abri para ver a quem pertencia, para devolvê-lo no dia seguinte. Qual não foi minha surpresa quando li uma redação que relatava o seguinte: se ele fosse um mico-leão-preto, ou uma onça ou um tucano, gostaria que seu local de moradia fosse aquele Parque, porque lá existiam pessoas como a Suzana (eu) e a Gracinha (minha fiel companheira desde o início de nossas aventuras educacionais, peça-chave no IPÊ até os dias de hoje), porque cuidavam com tanto amor e dedicação de toda a natureza que ali havia.

A emoção transbordou em lágrimas de gratidão que caíram sobre meu rosto. As dúvidas de se eu devia ou não parar meu trabalho desapareceram e a energia interna voltou com força redobrada. Histórias mágicas como essa aconteceram diversas vezes quando eu mais precisava. Não são aplausos, mas impulsos que me deram força para seguir em frente. Nesse caso, a troca foi mútua: o menino me deu força e incentivo com seu texto, e eu devo ter lhe inspirado para que o escrevesse. Mesmo sem saber, ele me deu a certeza interna da importância do que eu estava fazendo.

A transformação talvez precise de impulsos e processos de trocas contínuas. Basta termos olhos e corações abertos para percebermos os efeitos do que estamos fazendo. Aliás, resultados assim são consequências de algo maior, como a busca pela realização de sonhos de mudança e de reavivar nossa ligação com a vida em seu mais profundo valor.

2. Quais foram as principais mudanças sistêmicas que você promoveu?

Uma das mais significativas transformações que ajudei a construir foi o incentivo à capacitação da equipe interna, que aos poucos se tornou uma das fortalezas institucionais.

Dos 6 ou 8 jovens que fundaram o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas comigo e com o Claudio, meu marido, muitos são hoje referências nacionais e internacionais naquilo que fazem.

A pequena equipe inicial se expandiu para aproximadamente 200 pessoas que hoje trabalham em quatro biomas brasileiros: Mata Atlântica, Amazônia, Pantanal e Cerrado. Todos foram e são incentivados a estudar e se aprimorar naquilo que os move. É uma constante busca por oportunidades de cada um encontrar formas de aprimorar seus talentos e ir atrás de se tornar bom naquilo que faz. Conservação, melhorias sociais com práticas sustentáveis e envolvimento de comunidades precisam beneficiar gente e natureza. Isso depende de abordagens interdisciplinares e profissionais aptos a colocarem ciência a serviço de ações tangíveis. Os resultados podem não ser imediatos, como qualquer processo educacional, mas são potentes.

Ao perceber a força da educação para obtermos resultados positivos, demos um passo decisivo: fundamos a Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (ESCAS), que oferece cursos curtos e um mestrado reconhecido pela CAPES (Ministério da Educação). O objetivo é compartilhar as lições aprendidas por nossa equipe com outros profissionais que comungam dos mesmos ideais.

Mais de 8.000 alunos já participaram de nossos cursos e aproximadamente 250 concluíram nosso mestrado. São sementes de ipês espalhadas pelo Brasil, multiplicando e criando modelos que transformam realidades sociais, ambientais e econômicas para melhor.

Os projetos de campo do IPÊ integram teoria e prática, sendo a ciência a base para as ações. Como exemplo desses resultados ao longo das décadas, pessoalmente aprendi muito com meu próprio mestrado, quando avaliei o programa de educação ambiental que havia desenvolvido no Parque.

E, em meu doutorado, quase 20 anos depois, analisei o efeito do programa como um todo entre diversos segmentos sociais. Em ambos, pude constatar que os ensinamentos foram valiosos, e as lições aprendidas e metodologias adotadas ou desenvolvidas me deram um arcabouço de conteúdos merecedores de serem compartilhados. Conhecimento é essencial, e é aí que nossa escola se torna nosso meio de contribuir exponencialmente. Ainda é pouco? Talvez seja, mas é bem mais do que se eu liderasse sozinha as iniciativas que identifico como importantes. Compartilhar responsabilidades e empoderar outras pessoas dentro e fora da instituição que criamos tem, sem dúvida, potencial de ampliar o efeito de minhas ações solo.

Um dos maiores exemplos de transformação que realizamos é na região onde tudo começou: o Pontal do Paranapanema. Hoje, assentados da reforma agrária que tinham conflito direto com proprietários de fazendas entram com suas próprias empresas para plantar árvores num programa intitulado Corredores de Vida. Viveiros de mudas são cuidados por mulheres ex-assentadas, e outras empresas — aproximadamente 20 — foram criadas para reflorestar. Todos ganham: a natureza adquire áreas verdes com mais de 10 milhões de árvores plantadas; os assentados se tornam empresários; e a população regional ganha qualidade de vida equilibrada.

Além disso, durante dois anos consecutivos, o Brasil foi acometido por incêndios florestais. O Pontal foi exceção — não por ter sido poupado, mas porque a população local estava envolvida e pronta para apagar qualquer foco que se iniciasse. Esses são resultados palpáveis. Os Corredores de Vida, projeto iniciado pelo IPÊ por outro fellow Ashoka, Laury Cullen Jr., hoje têm imagens que podem ser vistas no site da Nasa. Onde havia apenas fragmentos de mata, agora existem conexões com novas florestas plantadas que garantem o fluxo gênico dos animais e a continuidade das espécies.

3. Como a Ashoka contribuiu para a sua jornada de transformação?

A Ashoka acreditou em mim como empreendedora antes mesmo de eu saber do que era capaz. Essa confiança fez imensa diferença, ao elevar minha autoestima e me imbuir de um senso de responsabilidade e vontade de corresponder às expectativas. Além disso, a rede de empreendedores que passei a conhecer me inspirou e me inspira até hoje. Trazem esperança de que o mundo pode ser diferente e melhor para todos.

A Ashoka me fez ter a certeza de que estava no caminho certo, ou melhor, que valia a pena me dedicar àquilo que eu era capaz de fazer para provocar as mudanças que considero necessárias e que valorizam a vida. Nutro pela Ashoka um profundo sentimento de gratidão. Fez e faz diferença na minha vida e na de tantas outras pessoas (além das milhares beneficiadas pelos empreendedores positivamente) que, como eu, não aceitam injustiças sociais e perdas da riqueza natural com passividade. Temos muito a fazer, mas saber que a Ashoka existe é um bálsamo para quem a tem no coração!

4. No que você está trabalhando hoje? Quais são suas prioridades atuais?

Acredito cada vez mais na força da educação como motriz de mudanças. Não a educação baseada apenas em transferência de conhecimento, mas aquela que mexe com valores e leva a questionamentos, a incertezas e a escolhas conscientes. Por isso, pretendo seguir contribuindo com nossa escola, a ESCAS, ou com outras oportunidades que me permitam compartilhar o que aprendi ao longo de minha trajetória e aprender o que enriqueça minha bagagem de conhecimentos.

Objetivamente, queremos levar nosso mestrado para a Amazônia, local ainda tão rico em biodiversidade e necessitado de profissionais aptos a se desenvolverem com iniciativas sustentáveis. Pretendemos também nos candidatar para oferecer um doutorado, pois quanto mais aptos e bem preparados forem os profissionais, mais chances existirão de proteger as riquezas socioambientais ainda abundantes no Brasil.

5. Como você vê o futuro do campo temático em que atua daqui a 10 anos? Que transformações você imagina nesse período?

Essa pergunta se assemelha ao exercício de criar uma visão institucional. Imagino um Brasil onde as pessoas valorizem a VIDA como sendo o elemento mais precioso a ser considerado: gente e suas diferentes culturas, e natureza, com seus biomas e ecossistemas. Para que isso aconteça, é necessário ensinar e exercitar o AMOR. Amor pela vida. Essa não é uma prática comum e, por isso, precisa se tornar prioridade nas pautas educacionais.

Em termos mais imediatos, a economia precisa entrar firmemente no cenário da conservação da natureza. Nossa instituição, o IPÊ, iniciou recentemente um programa que visa trazer conhecimento junto com ganhos financeiros para comunidades que vivem próximas a áreas naturais. Assim, terão maiores chances de se desenvolver sustentavelmente e com dignidade. Essa linha de ação já está sendo adotada na Amazônia e na Mata Atlântica, com perspectivas promissoras de sucesso.

Conheça mais sobre Suzana.