Médicos voluntários oferecem atendimento
No Brasil, os hospitais públicos estão tão sobrecarregados que aqueles que não podem pagar por um hospital privado podem decidir não procurar tratamento algum. Percebendo que muitos médicos estavam prontos para dar consultas gratuitas, João Paulo Nogueira Ribeiro lançou o Horas da Vida para conectar os médicos disponíveis aos indivíduos que necessitavam de serviços de saúde. Desde 2012, 45.000 pacientes foram beneficiados pelo Horas da Vida.
Entrevistador: O sistema de saúde brasileiro (SUS) teoricamente garante cobertura universal. Então porque existem tantas pessoas sem acesso aos tratamentos?
João Paulo: Esse sistema público realmente existe, mas a demanda é tão grande que a fila de espera para consultas e exames é bem longa. Por exemplo, em 2014, em São Paulo, 600.000 pacientes estavam nas filas. Além disso, apenas um quarto dos brasileiros tem acesso a planos de saúde privados. A meta do Horas da Vida é prover os cuidados básicos para essa população.
Entrevistador: Quais soluções vocês desenvolveram?
João Paulo: Nós ajudamos vários profissionais de saúde a oferecerem horas gratuitas de consultas, exames e produtos (como remédios ou óculos). No começo, nós atribuímos um modelo de uma consulta por pessoa em dificuldade. Mas no Brasil, 150 milhões de pessoas vivem sem planos de saúde privados, então é difícil determinar que realmente precisa. Então nós decidimos propor consultas gratuitas à beneficiários de outras ONGs. Nós começamos com uma importante organização de São Paulo, e agora trabalhamos com 15 ONGs. Graças a essa rede, 45.000 pacientes se beneficiam dos cuidados oferecidos por 1.800 voluntários em 35 especialidades.
Entrevistador: Como você seleciona os médicos voluntários para trabalhar com você?
João Paulo: Simplificando e organizando suas tarefas tem sido um dos grandes sucessos do Horas da Vida. Eu frequentemente escuto os médicos dizerem “Eu gostaria de ser voluntário, mas eu não sei como”. Quando eu cheguei em São Paulo, eu apresentei uma plataforma em duas das reconhecidas escolas de medicina da cidade, e eu era, assim, capaz de construir uma rede substancial. Eu sempre considerei que pessoas importantes devem estar cientes da ideia, para melhor propagá-la. Jornalistas, médicos figurões e políticos influentes me apoiam. Várias se proporam a ajudar para negociar apoio decisivo. Por exemplo, com universidades ou laboratórios que podem oferecer exames de sangue, ressonâncias ou até mesmo testes mais complexos.
Entrevistador: Quais são as suas ambições nos níveis nacionais e internacionais?
João Paulo: Para o momento, nós estamos concentrados na otimização dos nossos procedimentos. Nós queremos estar presentes nas principais cidades do Brasil, que é um país gigante. Nós já fomos capazes de estender as atividades do Horas da Vida para a cidade de Curitiba - PA, e nós fizemos intervenções nas cidades do Rio de Janeiro (RJ), Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC) - as maiores metrópoles brasileiras. Eu acredito que o modelo possa ser replicado em outras zonas, e eu ficaria muito feliz com isso, mas no momento ainda é apenas um sonho. Um dos maiores desafios é alcançar o equilíbrio, tudo enquanto mantemos as consultas gratuitas. Para isso, nós desenvolvemos uma plataforma para vender diferentes serviços relacionado aos sistemas de saúde. Além disso, vários fundos e companhias financiam o projeto, notáveis corporações brasileiras para quem nós propomos nossa metodologia para melhorar o processo de assistência médica.
Entrevistador: De onde você tirou a ideia de facilitar a conexão entre pacientes carentes e médicos?
João Paulo: Depois da minha especialização em geriatria, eu decidi criar uma interface para fazer marcações online chamada ConsultaClick. Ela visou todos aqueles que eram capazes de pagar, e foi implementada no Brasil , em Portugal, na Espanha e na Romênia. No fim de 2012, Eu disse a mim mesmo que que era possível usar essa ferramenta com pessoas que não tem os meios para pagar por uma consulta. Como outros médicos, eu os atendi como pro bono, mas de uma maneira desorganizada. Com minha interface, eu já tinha a tecnologia para simplificar a relação entre médico e paciente, então eu mostrei a ideia para alguns amigos. Nós, então, decidimos mergulhar de cabeça nela.Para minha grande surpresa, ela decolou. Nós começamos com nenhum procedimento real: nós usávamos o fax para enviar documentos, muitas coisas estavam no papel. Em retrocesso, parece inacreditável.
Entrevistador: Quais são os desafios do amanhã no acesso a assistência médica?
João Paulo: A melhor maneira de evitar o colapso do sistema é melhorar o cuidado e a qualidade de vida das pessoas. Mas um dos principais desafios ao meu ver, é entender quem precisa do que. No Brasil, muitos recursos existem em termos de testes, hospitais, e produtos, mas eles não são usados corretamente. Educando a população na prevenção é essencial. Muitos médicos do Horas da Vida oferecem conferências gratuitas e nós compartilhamos publicações científicas no nosso site e nas nossas redes sociais. Cooperação entre os setores público e privado deve ser encorajada também. Como uma ONG, nós estamos lá para inspirar as pessoas e propor modelos que podem ser adotados em larga escala. E, ainda mais no sistema público de saúde, sem o qual é difícil inovar e mudar os hábitos entranhados.
Por Timothée Vinchon - da Revista Health Tomorrow, uma parceria com o apoio da Ashoka, da iniciativa Making More Health e da Boenhringer Ingelheim. Mais informações em https://www.makingmorehealth.org