Fundadora do primeiro fundo dedicado a mulheres negras no Brasil passa a integrar a maior rede de empreendedores sociais do mundo
Aline Odara, idealizadora do Fundo Agbara, é reconhecida como Fellow Ashoka ao promover justiça econômica e incentivar uma nova visão da filantropia
Tudo começou com uma campanha de financiamento coletivo para apoiar empreendedoras negras durante a pandemia. Em cinco dias, 60 pessoas se comprometeram a contribuir com R$20 por mês. Em seis meses, eram 300 doadores recorrentes. Cinco anos depois, o Fundo Agbara já investiu mais de R$ 1 milhão em mulheres negras por todo o país.
Essa iniciativa nasceu de Aline Odara, que acaba de ser reconhecida como Fellow pela Ashoka, organização pioneira no campo do empreendedorismo social. À frente do Fundo Agbara, Aline impulsiona a inclusão produtiva e a justiça econômica a mulheres negras através de fomento, advocacy e produção de dados.
Para Kelly Matias, coordenadora de Busca e Reconhecimento de Empreendedores Sociais Ashoka, o trabalho do Agbara também revela a força transformadora da educação para inspirar e mover essas mulheres em um país ainda marcado pelo machismo e o racismo: “Ao ativar uma rede potente de agentes de mudança, Aline promove uma inovação social baseada no empoderamento econômico e no bem viver, gerando mudanças profundas em políticas públicas, práticas de mercado e mentalidades”, afirma.
De acordo com o Sebrae, as mulheres negras representam quase ¼ da população empreendedora no Brasil, mas ainda enfrentam diversas barreiras. A falta de acesso a crédito, recursos financeiros, treinamento técnico e networking, além da enraizada discriminação racial e de gênero, impedem que elas assumam riscos e tenham direito ao erro — partes inerentes à jornada empreendedora. Essa é a realidade para muitas lideranças negras à frente de micro e pequenas empresas, que frequentemente atuam na informalidade e sem proteção social.
Para romper ciclos de escassez e garantir acesso a renda e trabalho dignos para mulheres negras, Aline engaja empreendedoras, filantropos, empresas, governos e a sociedade brasileira em um movimento por reparação histórica e combate ao racismo estrutural. “Tudo que me proponho a fazer tem ousadia e atrevimento, que se materializam em um olhar voltado à inovação e à disrupção a cada projeto que idealizamos no Agbara”, diz Aline. “Meu propósito, não apenas como empreendedora social, mas de vida, é contribuir para a luta por justiça racial e pela emancipação da população negra no Brasil”.
O Agbara é o primeiro fundo voltado a mulheres negras do país. A organização promove jornadas de formação técnica, socioemocional e política, nas quais as participantes recebem financiamento para impulsionar suas iniciativas, ao mesmo tempo em que se fortalecem no âmbito técnico e institucional para seguir levantando recursos mesmo após o fim do ciclo formativo. Ao final do programa, as participantes constroem seus projetos de vida, de negócios ou carreira, e passam a integrar a rede do Agbara, que oferece suporte contínuo e conexões.
Aline reconhece que apenas o Fundo Agbara não é suficiente para apoiar todas as mulheres negras em situação de vulnerabilidade no país. Por isso, entende que é necessário transformar o ecossistema da filantropia e pautar a justiça econômica para mulheres negras como uma prioridade na agenda política para que, assim, seja possível gerar mudanças duradouras no contexto brasileiro.
Nesse sentido, Aline trabalha em parceria com empresas na construção de planos de ação para equidade racial que garantam a inclusão e permanência de pessoas negras nos espaços de trabalho. Essa iniciativa também estimula a liderança negra feminina, seu progresso profissional e a participação ativa em cargos de tomada de decisão. Além disso, une produção de dados com incidência política para influenciar políticas públicas, o campo da filantropia e o setor privado na promoção da justiça social, econômica e climática. Entre os projetos que servem esse objetivo é o Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (NUPEMN), que produz, sistematiza e difunde dados a partir de uma perspectiva racializada da filantropia.
Por fim, o Agbara promove encontros e eventos que sensibilizam o público sobre questões de gênero, raça e classe, além de gerar renda para empreendedoras e valorizar a produção artístico-cultural feita por mulheres negras.
Natural de Campinas e formada em Ciências Sociais e Pedagogia, Aline vivenciou a estabilidade financeira pela primeira vez em 2020, ao assumir um cargo de professora na rede municipal de Campinas. Essa experiência possibilitou que ela se libertasse de uma lógica imediatista da sobrevivência e pudesse pensar no seu futuro. A partir daí, também surgiu o compromisso de utilizar seus conhecimentos para garantir que outras mulheres negras tivessem acesso ao mesmo conforto e segurança que estava acessando. O Fundo Agbara já impactou diretamente mais de 4 mil mulheres negras por todo o país e faz parte de diversas redes para potencializar recursos, conhecimento e experiências, além de fortalecer sua capacidade de influenciar políticas públicas e promover mudanças significativas nas práticas do setor privado.
Ao ser reconhecida como Empreendedora Social Ashoka, Aline passa a integrar uma comunidade global de pessoas e instituições inovadoras comprometidas com a visão de que todas as pessoas são agentes de mudança pelo bem comum. Como parte dessa rede, a cofundadora do Agbara busca imaginar novos mundos e criar estratégias colaborativas que gerem impactos sistêmicos e duradouros. “Além disso, quero expandir nossas redes a nível nacional e internacional”, diz Aline, “para que a concretude desses novos imaginários sejam, pouco a pouco, mais reais e mais possíveis para a nossa comunidade”.