Empreendedor social transforma o cuidado paliativo em missão comunitária
Fundador da Favela Compassiva Rocinha e Vidigal, Alexandre Silva acaba de ser reconhecido como Fellow da rede global da Ashoka
Desde a infância, o mineiro Alexandre Silva se sensibilizava com o sofrimento nos momentos finais da vida. Ele cuidava de balões como se fossem pacientes, acompanhando-os até o último sopro de ar. Anos depois, viu sua tia receber alta hospitalar com diagnóstico de câncer no fígado, sem qualquer suporte ou garantia de qualidade de vida nos seus últimos momentos de vida. Essa experiência o colocou no caminho de transformar o cuidado e a compaixão em sua missão.
Hoje, Alexandre lidera a Favela Compassiva Rocinha e Vidigal, que mobiliza uma rede de voluntários e profissionais de saúde para zelar por pessoas elegíveis aos cuidados paliativos em territórios historicamente vulnerabilizados. Por seu impacto sistêmico, ele acaba de ser reconhecido como Fellow da Ashoka, organização pioneira no campo do empreendedorismo social, presente em mais de 90 países.
Cuidados paliativos em um país que envelhece
O Brasil envelhece em ritmo acelerado. No entanto, essa transformação não vem acompanhada da redução das desigualdades, que se acentuam nesse cenário. Projeções publicadas no The Lancet Global Health estimam que, até 2060, cerca de 48 milhões de pessoas no mundo morrerão anualmente por sofrimento intenso associado a condições de saúde debilitantes, sendo 83% desses óbitos em regiões de baixa e média renda, onde os serviços de cuidados paliativos são escassos ou inexistentes.
Nas favelas, o cenário é ainda mais crítico. Em áreas como a Rocinha, onde se estima que vivam 180 mil pessoas — dado frequentemente subnotificado — as discrepâncias entre os dados oficiais e a realidade local dificultam a capacidade de planejamento e atendimento das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), e as condições estruturais limitam a chegada dos serviços de saúde à população.
Cuidado que nasce da própria comunidade
Inspirado no modelo internacional das comunidades compassivas, Alexandre trabalha por meio de uma abordagem comunitária, que se estrutura de baixo para cima. “Acredito no cuidado construído no território, com a comunidade, fortalecendo vínculos, redes de solidariedade e o protagonismo local”, diz o empreendedor social.
A Favela Compassiva identifica pessoas voluntárias dispostas a contribuírem como cuidadoras comunitárias. Para isso, não há pré-requisitos, pois cada pessoa recebe capacitação de acordo com seu nível de conhecimento e disponibilidade. Então, esse grupo identifica moradores elegíveis aos cuidados paliativos, que passam a receber visitas domiciliares mensais da pessoa voluntária junto a profissionais de saúde.
Esses profissionais de saúde elaboram planos de cuidado abrangentes, e os voluntários locais têm um importante papel de coordenar a aplicação desse plano junto a UBSs da região. A organização, portanto, não substitui o SUS, mas trabalha em colaboração para aliviar a demanda sobre as unidades de saúde e capacitar moradores para atuarem como agentes de mudança e cuidado em suas próprias comunidades.
Do local ao nacional
Alexandre foi uma figura-chave na implementação da Política Nacional de Cuidados Paliativos (Portaria GM/MS nº 3.681/2024), apoiando o Ministério da Saúde no desenvolvimento de diretrizes para tornar os cuidados paliativos acessíveis em áreas com grandes desafios sociais. Atualmente, há iniciativas de comunidades compassivas em 26 territórios pelo Brasil, com mais de 140 famílias atendidas, impulsionadas pelo apoio técnico direto da equipe da Favela Compassiva.
A partir de seu trabalho, Alexandre está contribuindo para reimaginar o que significa envelhecer no Brasil, colocando autonomia, propósito e participação comunitária no centro de um novo modelo de cuidado ao longo de toda a vida. Seu reconhecimento como Fellow Ashoka é resultado de um processo rigoroso e aprofundado de avaliação. Ao longo de meses, a equipe Ashoka mergulhou em sua história de vida, no funcionamento da Favela Compassiva e em sua capacidade de gerar impacto sistêmico — mudanças duradouras em políticas públicas, práticas de mercado e normas sociais que moldam a vida de comunidades inteiras. Segundo o empreendedor social, “esse reconhecimento potencializa o meu propósito ao me conectar com uma comunidade global voltada à transformação sistêmica”.
“Alexandre desenvolve ferramentas inovadoras para o cuidado paliativo em comunidades vulnerabilizadas, integrando saberes locais ao Sistema Único de Saúde”, diz Kelly Matias, coordenadora de Busca e Reconhecimento de Empreendedores Sociais Ashoka. “Seu trabalho recoloca no centro das discussões sociais o direito de viver e morrer com dignidade, bem como o direito de contribuir para o bem comum ao longo de toda a vida, ampliando o olhar sobre saúde e humanidade”.
Saiba mais sobre Alexandre: ashoka.org/pt-br/fellow/alexandre-silva