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Solidários - O efeito dos bancos comunitários na sociedade

Quando a Ashoka inclui um empreendedor social na sua rede mundial reconhece a capacidade dessa pessoa para produzir mudanças sistêmicas em determinados setores da sociedade com abrangência ao menos nacional. O Encontro Global de Bancos Solidários de Desenvolvimento, que aconteceu na última semana em Fortaleza, foi momento privilegiado para entender como isso acontece.

 

O encontro foi organizado pelo teólogo Joaquim Melo, criador do Banco Palmas, em Fortaleza. Um banco comunitário é aquele que inverte a lógica do sistema financeiro: ao invés da rentabilidade, os empréstimos e investimentos feitos pelo banco focam no desenvolvimento humano e local. Concedem crédito para as pessoas da comunidade que não acessam os bancos porque não podem dar garantias de pagamento, o que deixa de fora do sistema financeiro 60 milhões de brasileiros adultos. Para os bancos comunitários as garantias são dadas pela própria comunidade, o que fortalece os laços, base da democracia e da paz. A moeda produzida pelos bancos comunitários possibilita a criação de cooperativas e outros empreendimentos solidários e circula no território, fazendo com que a riqueza local (sim qualquer comunidade brasileira gasta, no seu conjunto, centenas de milhares de reais no comércio) permaneça ali.

 

Hoje já são mais de cem bancos comunitários que emprestam R$ 20 milhões a cem mil brasileiros. Estes bancos se organizam em uma Rede, coordenada por Joaquim e a psicóloga Leonora Mol. Leonora fundou em 2003 a Associação Ateliê de Ideias e em 2005, com os moradores de São Benedito, o Banco Bem, em Vitória no Espírito Santo. Hoje, além da Rede, Leonora dirige também a Fábrica de Tijolos Ecológicos.

 

A maior parte das pessoas beneficiadas pelos bancos comunitários são as mulheres, essa força empreendedora da sociedade brasileira. Com foco prioritário nelas e nos seus filhos a administradora Lilian Prado fundou a Acreditar em Pernambuco, quando tinha 20 anos. A Acreditar utiliza o microcrédito produtivo e a educação financeira para apoiar jovens e mulheres a criarem e prosperem com seus negócios no campo. Lilian, de família de agricultores, inverteu a visão de que quem fica no campo é aquele que não tem mais opções na vida. Afirma o contrário, ficar no campo é ter visão de futuro, visão que se expressa nos negócios que se voltam para o desenvolvimento sustentável da zona da Mata pernambucana. Também focada nos jovens, nasceu há dez, por iniciativa de jovens agricultores que chegaram à universidade, a Agência de Desenvolvimento Local no Ceará. Hoje, já expandindo suas ações para o Rio Grande do Norte, a Adel fomenta os empreendimentos dos jovens do campo para que possam optar por permanecer e se realizar em suas comunidades se assim desejarem.

 

Na outra ponta do Brasil, a costureira Nelsa Inês Fabian Nespolo criou em 1996, no Rio Grande do Sul, a Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos- Univens. Em 2005, esta cooperativa fomentou a cadeia do algodão agroecológico Justa Trama, que articula empreendimentos em 5 regiões do Brasil, envolvendo desde o plantio do algodão, fiação, tecelagem, confecção, adereços de sementes e comercialização. Atualmente Nelsa dirige o Banco Comunitário Justa Troca. No encontro em Fortaleza, Nelsa enfatizou a importância de substituir os intermediários da cadeia solidária por empreendimentos sociais.

 

Os bancos comunitários se espalharam por outros países latino-americanos. O filósofo Salomon Raydán Rivas desenhou e implementa o modelo de Empresas Financeiras Locais de Capital Próprio chamado Bankomunales na Venzuela, Colombia e outros países. Salomon provocou os presentes no Encontro de Fortaleza, fazendo-os refletir sobre a importância maior

de focar na poupança feita pelas populações locais, o que possibilita a total independência em relação a investimentos externos.

 

É isso que a Ashoka quer dizer com mudança sistêmica em escala nacional. Uma alternativa viável ao que o economista Ladislau Dowbor chamou de economia do capital improdutivo, que inclui milhares de pessoas e potencializa sua capacidade de transformar positivamente o mundo.

 

Helena Singer é vice-presidente de Juventude da Ashoka na América Latina